O juiz tem uma lista de peritos cadastrados na especialidade. Quando chega um processo que precisa de perícia, ele nomeia alguém dessa lista. A questão é: como ele escolhe? Existe critério formal, existe rodízio, existe protocolo. Mas existe também algo que opera em paralelo a tudo isso e que pesa mais do que qualquer critério formal: a memória do que aconteceu nas últimas vezes.
Perito que cumpriu o prazo. Perito que pediu prorrogação com antecedência e justificativa clara, uma vez. Perito que protocolou correto na primeira vez, sem precisar de correção. Perito cujo laudo chegou formatado, com quesitos respondidos na ordem, sem precisar de esclarecimento posterior. Esse perito facilitou o trabalho do juiz. E juiz que tem o trabalho facilitado por alguém tende a chamar esse alguém de novo.
Como os erros se acumulam sem você perceber
Do outro lado, o perito que pediu prorrogação em cima da hora, sem justificativa sólida, num processo que o juiz sabia que não era excepcional. O perito que protocolou com erro e precisou de despacho para corrigir. O perito que entregou o laudo, recebeu contestação, e a resposta veio vaga - como se o percurso da análise não estivesse bem documentado.
Cada um desses episódios é pequeno. Nenhum deles, isolado, elimina ninguém de lista nenhuma. Mas o juiz lembra. Não de forma deliberada - da mesma forma que você lembra do encanador que resolveu o problema na primeira visita e do que precisou voltar três vezes. Não existe planilha de avaliação, não existe nota, não existe conversa. Existe memória que se forma por repetição, e que opera silenciosamente toda vez que uma nomeação precisa ser feita.
O detalhe que a maioria não vê
O peso de um erro depende de quantas experiências o juiz tem com você. Com alguém que ele conhece bem, um problema vira exceção - ele tem referências suficientes para contrabalançar. Com alguém que ele mal conhece, um problema vira dado.
Se as duas únicas experiências que ele tem com você são uma boa e uma ruim, ele não sabe o que você é. Na dúvida, nomeia quem conhece melhor.
Por que os primeiros casos constroem mais do que parecem
Isso significa que os primeiros casos carregam um peso desproporcional. Não porque o juiz seja injusto - porque é assim que qualquer julgamento funciona quando a amostra é pequena. Você ainda não tem histórico suficiente para que um erro seja lido como exceção. Cada interação nos primeiros meses está contribuindo para uma impressão que vai levar tempo para ter contexto suficiente para ser relativizada.
O que ninguém te conta é que o juiz também está observando coisas que você não sabe que está mostrando. A petição de aceitação de nomeação que chegou com campo em branco. O e-mail respondido três dias depois de um prazo que era curto. A diligência marcada e desmarcada duas vezes. A prorrogação pedida num processo onde a diligência nem tinha acontecido ainda.
Nenhum desses detalhes gera consequência imediata. Todos eles geram impressão. E impressão acumulada vira reputação - no sentido mais literal do termo. É o que as pessoas falam de você quando você não está na sala.
O que isso tem a ver com estrutura
Não é sobre competência técnica. É sobre operação.
A maioria desses detalhes não depende de competência técnica. Depende de estrutura operacional. Petição que sai com campo em branco não é sinal de perito incompetente - é sinal de perito que não tem modelo padronizado e formatou na pressa. E-mail respondido com atraso não é descaso - é sinal de perito que não tem sistema de acompanhamento e viu a mensagem quando já era tarde. Prorrogação pedida na hora errada não é mal planejamento técnico - é sinal de perito que não tinha visibilidade sobre o prazo com antecedência suficiente para agir antes.
Tudo isso é corrigível. E o momento mais barato para corrigir é antes de o padrão se formar - não depois que o juiz já tem três episódios na memória.
O perito que é fácil de trabalhar não só recebe mais nomeações do mesmo juiz. Ele começa a aparecer em conversas. Juiz que confia num perito menciona esse perito para colega que está procurando alguém na especialidade. Advogado que trabalhou num processo bem conduzido indica aquele perito quando o cliente precisa de laudo particular. Você não sabe de onde veio a nomeação nova, não sabe quem mencionou seu nome, não sabe o que foi dito. Você só vê o resultado.
Se você está começando agora, está num momento específico: o juiz ainda não tem memória sobre você. A lista está em branco. O que você fizer nos próximos doze, dezoito meses vai começar a preencher essa lista - e vai ser muito mais difícil apagar o que estiver escrito lá do que teria sido escrever certo desde o começo.
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